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Governança Corporativa no Setor Público
Tecnologia orientada a resultado: por que exponencialidade importa mais que eficiência
Adotar inteligência artificial ou Big Data porque "todo mundo usa" é o motivo errado. No setor público, a tecnologia precisa ser orientada a resultado — definida a partir do problema a resolver e do propósito interno e externo.

Auditor do TCU · Especialista em gestão de riscos e controles internos
3 min de leitura
Adotar inteligência artificial ou Big Data porque "todo mundo usa" é o motivo errado. No setor público, a tecnologia precisa ser orientada a resultado — definida a partir do problema a resolver e do propósito interno e externo. E, diante do tamanho das demandas, o objetivo já não pode ser apenas eficiência, mas resultados exponenciais.
Governar tecnologia é definir propósito
Boa governança sobre tecnologia não significa dominar os detalhes técnicos de como cada ferramenta funciona. Significa, principalmente, definir o propósito pelo qual aquela tecnologia existe e pode ser usada na organização. A pergunta que orienta tudo é simples: para que essa tecnologia vai ser usada aqui? Sem responder a isso, corre-se o risco de achar que a tecnologia é boa por si só, perdendo de vista que ela é apenas um instrumento para alcançar os fins da organização.
O poder da exponencialidade
Um experimento mental ajuda a entender o ponto: é melhor receber um milhão de reais hoje ou um centavo que dobra de valor todos os dias durante um mês? A intuição engana. O centavo que dobra diariamente chega, ao fim de um mês, a cerca de R$ 10,7 milhões — mais de dez vezes o valor de um milhão recebido de imediato. É a diferença entre crescimento linear e crescimento exponencial: o exponencial começa modesto, mas depois de um tempo explode.
Essa lógica precisa entrar no raciocínio público. Diante do volume de demandas, ser 10%, 30% ou mesmo 100% mais eficiente muitas vezes não resolve — o estoque de processos de um tribunal, por exemplo, continuaria enorme. O que se precisa é de saltos: melhorar duas, cinco, dez, vinte vezes. O crescimento linear leva a uma situação melhor, mas insuficiente; o exponencial investe em ações que, a princípio, rendem pouco, mas que maturam e depois disparam. Vale notar que isso não se confunde com o princípio jurídico da eficiência do artigo 37 da Constituição, e sim com o conceito administrativo de melhorar a relação entre recursos e resultados.
Tecnologia sempre associada a um resultado
O recado central é que a tecnologia deve servir para exponencializar resultados. Querer usar inteligência artificial "porque todo mundo usa" ou para passar imagem de modernidade é o motivo errado. O motivo certo é que a ferramenta vai ajudar a resolver um problema concreto. O mesmo vale para Big Data: a pergunta não é se é legal usá-lo, mas qual problema ele vai ajudar a resolver. Toda tecnologia precisa estar associada à solução de um problema e a um resultado que se quer alcançar.
Propósito interno e propósito externo
Por isso, a governança precisa definir o propósito interno e o propósito externo da tecnologia. O propósito interno responde a como a organização vai resolver o problema; o externo, a como essa solução vai impactar o público-alvo e a sociedade. Tecnologias como Big Data, internet das coisas, realidade virtual, computação em nuvem e inteligência artificial não são importantes por si mesmas: primeiro se define o problema e os propósitos interno e externo; só então se escolhe a tecnologia que melhor ajuda a alcançá-los.
A ausência dessa disciplina cobra caro. As distrações no setor tecnológico são imensas, e sem foco no problema e nos propósitos, gasta-se orçamento, tempo e esforço para, dois anos depois, surgir uma nova tecnologia e jogar fora tudo o que foi investido — perpetuando a lacuna no atendimento às demandas sociais. É necessária uma verdadeira mudança de mentalidade: discutir menos a tecnologia em si e mais o problema e os propósitos que ela deve servir.
Principais pontos
• Governar tecnologia é definir o propósito de uso, não dominar apenas os detalhes técnicos.
• O crescimento exponencial supera de longe o linear.
• Diante do volume de demandas, ser mais eficiente não basta; é preciso buscar saltos exponenciais.
• A tecnologia deve ser orientada a resultado, e não adotada por modismo ou imagem.
• A governança define o propósito interno e externo antes de escolher a tecnologia.
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